Um cineasta genuíno: confira a entrevista com Tabajara Ruas, homenageado do SMVC

Taba - by Dulce Helfer

Um dos maiores escritores e cineastas brasileiros, nascido em Uruguaiana, Marcelino Tabajara Gutierrez Ruas não se cansa de produzir. Atuando desde 1978 e dono de inúmeros prêmios em festivais nacionais e internacionais, Tabajara Ruas lançou, no mês passado, sua mais recente longa-metragem, baseado no ensaio escrito em parceria com o jornalista Elmar Bones: A Cabeça de Gumercindo Saraiva.

O Santa Maria Vídeo e Cinema terá a honra de exibir o seu longa-metragem, na noite de abertura do festival. Na ocasião, Tabajara receberá a homenagem do SMVC, com o aclamado Troféu Vento Norte.

Nós conversamos com Tabajara, que falou sobre sua trajetória no cinema, o novo filme e sobre o momento atual do cinema gaúcho e brasileiro.

Confira a entrevista abaixo:

Santa Maria Vídeo e Cinema – Tens uma inclinação muito forte nas suas obras em relatar temas voltados à história do Rio Grande do Sul. Como se dá esse interesse na sua trajetória?

Tabajara Ruas – Acho natural e saudável essa inclinação. Afinal, nasci aqui nesta querencia, não no Nordeste nem na Patagônia. Nos cabe falar, contar, pesquisar e tentar entender o que nos rodeia, e isso nem sempre é fácil ou compreendido. Na minha trajetória isso se dá através da linguagem épica, fruto dos nossos grandes livros, da nossa tradição fronteiriça e da História que nos coube.

SMVC – Como foi a construção do roteiro de “A Cabeça de Gumercindo Saraiva?”. É baseado em história real com pitadas de sobrenatural / ficção?

Tabajara Ruas – Vinte anos atrás escrevi em parceria com o jornalista Elmar Bones o ensaio A cabeça de Gumercindo Saraiva. Era um ensaio sobre o Rio Grande do Sul. Três anos atrás escrevi uma noveleta “Gumercindo”, relatando o conhecido caso da degola e da entrega da cabeça para o governador de então, Julio de Castilhos. Sobre esse fato macabro existem várias versões, algumas oficiais e nenhuma conclusiva. Escrevi a minha partindo do pressuposto de que Gumercindo é um mito gaúcho, isto é, produto do imaginário coletivo. Contribui com a minha versão. O roteiro é uma adaptação fiel da noveleta.

SMVC – Em quais cidades o longa foi rodado?

Tabajara Ruas – Filmamos a partir da região missioneira, mas percorrendo uma rota imaginária e livre até Porto Alegre. As locações foram em São Miguel das Missões, São Francisco de Paula, Cambará do Sul, Canela, Gravataí e Porto Alegre. Sempre muito bem recebidos pelas populações e governos das localidades.

SMVC – O filme está sendo considerado um Western um bang-bang com estética, montagem e narrativa fortíssimas. Como chegaste a esse resultado?

Tabajara Ruas – Eu venho praticando essa estética nos cinco filmes que fiz, que é uma releitura brasileira do western que é uma tradição do cinema americano, que por sua vez, o western, é uma releitura dos romances de cavalaria, tão bem satirizados por Cervantes no seu Dom Quixote. O êxito de crítica que o filme está colhendo no momento se deve à qualidade e profissionalismo da minha equipe.

SMVC – Como recebes a homenagem do Festival de Santa Maria?

Tabajara Ruas – Recebo com natural alegria. Mas principalmente com humildade. O cinema é uma arte democrática porque é fundamentalmente coletiva. E porque a produtora, Ligia Walper, é uma segurança de que chegaremos a bom termo ao fim da jornada.

SMVC – Sua filmografia é uma das mais importantes do cinema gaúcho, brasileiro e latino-americano. Como ainda mantém tão forte essa vontade de fazer cinema?

Tabajara Ruas – Fazer cinema é uma atividade alegre. Quem não gosta de estar junto da alegria enquanto trabalha?

SMVC – O que o escritor Tabajara Ruas influencia o cineasta Tabajara Ruas? Como transita nessas duas áreas?

Tabajara Ruas – Eles convivem. O cineasta está dentro do escritor. Sou como o cangaceiro Corisco, de Glauber Rocha, que tinha duas cabeças, uma por dentro, outra por fora.

SMVC – Em “A Cabeça de Gumercindo Saraiva”, dirigiste o ator Leonardo Machado, recentemente falecido e homenageado nacional do Festival de Santa Maria 2018. Qual a sua relação com o Leonardo e como vê a trajetória cinematográfica dele?

Tabajara Ruas – Trabalhei com o Leonardo em dois filmes, “Os senhores da guerra” e neste, “A cabeça…” Nos tornamos amigos e parceiros. Tínhamos projetos para o futuro. Não deu. Leo era um cidadão exemplar e um artista criativo e sensível. O que ele fez está eternizado. Estará sempre conosco.

SMVC – Como você vê o atual momento do cinema gaúcho e brasileiro?

Tabajara Ruas – O cinema gaúcho e brasileiro continua sua viagem aos trancos e barrancos. Ainda não temos o principal: público nas salas. Temos obras de qualidade, respeito da crítica internacional, sucesso em festivais, mas as salas continuam vazias. Acho que isso é uma derivação do que o Brasil é atualmente, complexo e com abismos a separar classes e vontades. Vamos continuar fazendo cinema, aproveitando todas as plataformas e não apenas as salas de exibição, que tanto amamos, mas que não  corresponde a nossa paixão. Uma exibição em qualquer tv dá uma media de 1 milhão de espectadores. É um consolo, mas temos que buscar o público das salas, que dá bilheteria e que pode sustentar o nosso cinema.

Texto produzido pela jornalista Liciane Brun (MTB 16.246) / Veleiro Conteúdo Criativo. Fotografia de Dulce Helfer.

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